O PERNETA

O PERNETA

( versos de Francisco Calasans Lacerda , inspirado  no conto de autoria de Coelho Neto)

Digo eu: quase sempre o verdadeiro herói tem a aparência de um mendigo enquanto o covarde se faz parecer um nobre.

 

O toque, toque das muletas

Da petizada a veneta

Despertava no recreio

Mas ele passava altivo

Sem negar o seu sorriso

Sem mostrar qualquer receio

 

Apoiado em suas muletas

Ele ouvia: ó perneta!

Ao  passar pela calçada

Ele tirava o seu chapéu

E rindo olhava para o céu

Saudando a meninada

 

O insulto era constante

Mas, fraterno e confiante

Sempre rindo o encara

Para ele é um lenitivo

Pois ali está o motivo

Da vitória que buscara

 

 

 

Com a direção do colégio

Ele tinha algum privilégio

Pois conheciam seu valor

Certo dia… que surpresa!

Ele sentado à mesa

Esperando o diretor

 

Aflita a criançada

Correu desesperada

Para ouvir a reclamação

Mas o Perneta era um nobre

Mesmo sendo um homem pobre

 Tinha um rico coração

 

Todos estavam a pensar

Que ele veio reclamar

Pois teria toda a razão

Dos alunos o mais ousado

Preparou-se com cuidado

Para fazer a indagação 

 

Qual não foi sua surpresa

Ele estava  àquela mesa

Porque ali foi chamado

Sua história conhecia o diretor

E por isso é que o chamou

Para lhe dar um terno usado

 

Mas aquele afoito garotinho

Tinha brilho em seus olhinhos

 E ele docemente o fitava

Venha aqui, meu menino,

Disse o Perneta sorrindo

E a classe inteira escutava

 

A curiosidade é eterna

O que é de sua perna?

Perguntou-lhe, sem timidez.

Minha perna, meu menino,

Cumpriu bem o seu destino

Deus soube bem o que fez

 

Em clima mais que amistoso

O garotinho curioso

Perguntou: o que aconteceu?

O perneta sempre terno,

Sorriso aberto e fraterno

Detalhadamente respondeu.

 

Em seu rosto ferve a dignidade

Virtude de quem jamais foi covarde

Um monstro terrível a devorou!

Um monstro?! Que monstro foi esse?

Não houve ninguém que o socorresse?

Conte, conte! Por favor!

 

Neste momento a meninada

Escondida e amedrontada

Resolveu se aproximar

Todos já tinham percebido

Que aquele homem sofrido

Tinha algo a lhes falar

 

Um monstro terrível meus meninos

Tudo ele devorava com desatino.

Diziam que fogo pela boca expelia!

Ameaçando nossa comunidade

E eu, no vigor da mocidade,

Acovardar-me não poderia

 

Todos os jovens do lugar

Ofereceram-se para lutar

Partimos, decididos e francos

As moças atiram-nos flores

Velhos seguiam os nossos tambores

E nos mostravam os cabelos brancos

 

Ele  devoraria nossas crianças

Por isso tínhamos esperanças

De que Deus nos ajudaria

Chegamos, lutamos e vencemos

Nossas crianças estão crescendo

E estamos cheios de alegria.

 

Morreram alguns companheiros    

O monstro maldito, traiçoeiro,

Sem piedade os devorou

Eu, mais feliz, escapei da morte.

Jamais  me queixei da sorte

Apenas minha perna lá ficou

 

Quando vocês brincam no recreio

Para mim é um devaneio

É imensa a Minha alegria

Afinal foi para isso que eu lutei

Em plena batalha eu sonhei

Com vocês nesta grande euforia

 

Dependo desta muleta

Quando me chamam de perneta

Não me incomodo jamais

Nesse instante o garotinho

Com agua em seus olhinhos

Disse-lhe: não chamamos mais!

 

Mas, fale-nos, por favor,

Do monstro que a devorou

Era do Planeta Terra?

Sim, meus meninos, ele era daqui.

A coisa mais cruel que eu já vi

 Seu nome, meus meninos,  guerra!

 

Foi um abraço coletivo

Ao nobre exemplo de civismo

A criançada se curvou

E agradecendo ao seu herói

Que a sua pátria constrói

Um a um o abraçou

 

Todos estavam emocionados

E se vendo tão homenageado

Desejou  ter ali o seu  próprio fim

E qual um anjo divino

Disse:  ah , meus pequeninos!

Assim  dão cabo de mim!.

 

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